O que o “online” do Whatsapp revela sobre paranoia e intuição?

“Online do Whatsapp? Paranoia total, coisa de gente louca!”

Pode ser que tenha sido essa sua reação racional a esse tipo de inquietação. Não te tiro a razão, preciso concordar com você. Mas uma frase que ouvi há um tempo que sempre me sirvo dela é que “entre o preto e o branco há diversos tons de cinza”, e, portanto, infinitas possibilidades de pensar uma situação que parece óbvia à primeira vista.

Hoje, quero falar sobre o que uma coisa tonta como um online do Whatsapp revela sobre paranoia e intuição.

Entre ouvir a intuição e não pagar de maluca (o), onde está o limiar? Hoje, como em muitas outras ocasiões neste site, vou sentar na cadeira de visita do diabo e contar dois casos em que o online do Whatsapp representou infidelidade.

Devo esclarecer que o primeiro deles ouvi em uma mesa de plástico amarela em um bar lá do meu país Minas Gerais, lá pelas tantas da madrugada, e as pessoas terão seus nomes trocados.

Afinal, ninguém precisa gritar aos quatro ventos as gaias digitais que levou, mas isso não significa que a história não deva ser contada.

Então vamos ao que interessa.

“Meu ex confessou que estava fazendo sexting com a amiga enquanto eu esperava ele me responder”

Os aplicativos de mensagem, desde o início dos tempos, são local muito sensível no que diz respeito à confiança e fidelidade de um casal. E nesse caso, onde havia fumaça, havia também fogo. E muito.

Camila e Ricardo haviam começado a namorar 3 meses antes de ela se mudar para o Rio a trabalho, onde estava se dando muito bem. O boy tinha ficado, com planos de ficarem à distância por um tempinho até ajeitarem as coisas. Ele ainda morava com os pais em Minas e era bem apegado à família, principalmente aos avós.

Dizia não ser necessário pensar em mudança, afinal já tinha uma rotina: trabalhava, conseguia almoçar em casa (comida de vó, veja bem) e podia poupar bastante dinheiro de moradia, o que era um fator importante, mesmo já tendo seus 27 anos.

Ele foi visitá-la no Rio, pouco tempo depois de sua mudança e adorou a cidade. Começou a pensar seriamente em mudar os rumos da vida. Poderia ir morar com Camila, que de bom grado propôs a possibilidade a ele. Durante a visita, viveram uma lua de mel carioca. Era verão com tudo o que tinha direito: praia, carnaval, calor, festa e natureza. Ele voltou à Minas porque tinha que voltar, senão teria ficado com ela. Foi o que afirmou um par de vezes.

O sexo entre os dois estava ativo como nunca, apimentado pela distância e pela perspectiva de um amor que superava dificuldades como aquela. Camila, apesar das tentações da nova cidade, não sentia a menor vontade de interagir com mais ninguém.

Com as conversas sobre mudança de vento em popa, Ricardo todos os dias abordando como seria bom para ele sair de casa, o relacionamento começou a tomar contornos muito mais sérios. Se falavam com frequência. Um dia discutiram, porque ele havia ido a uma festa e sumido das redes sociais e ele parou o carro no meio do trabalho, para se recuperar da tristeza profunda que sentiu pela possibilidade de perdê-la.

Assim, Camila baixou a guarda e entendeu que poderia estar pegando pesado demais com ele. Afinal, ele havia provado que gostava mesmo dela.

Certo domingo, Camila corria de um lado para outro para fazer uma viagem internacional a trabalho. Seria a primeira vez que sairia do país e estava muito nervosa. Passou em um bar, onde encontrou alguns colegas que ficariam na cidade, para interagir um pouco. Havia aprendido que em um novo trabalho, social é importante.

Nesse dia em questão, se incomodou porque Ricardo estava um pouquinho sumido e geralmente não fazia nada relevante aos domingos. Não havia chegado a uma hora de bar, ele mandou uma mensagem bem carinhoso, dizendo que estava com saudades.

Sem conseguir conter-se para trocar uma chamada de vídeo com ele, deu uma desculpa e foi embora. Chegou em casa, deitou-se em sua cama. Ele disse que havia sentido falta dela naquele dia. Tanta falta, muita falta e enviou a seguinte mensagem:


“Olha o que eu estou fazendo”

Uma imagem de visualização única. Ele só de short, com a mão por baixo, tocando-se.

Quem se relaciona a distância sabe que o mínimo pode ser muito relevante em uma situação dessas. Ela foi ao banheiro, ajeitou os cabelos, tirou a blusa e mandou uma foto pra ele. Também de visualização única. Daquelas que dizia “Foto aberta” após a pessoa ver a foto.

Esperou.

Estava sem sutiã, deitada, com o celular na cara. O Whatsapp aberto na janela dele.

“Online”

5 minutos se passaram.

E a foto que ela havia enviado continuava sem visualização.
Podia ser algum problema do telefone novo dele. Ou podia ser que tivesse se empolgado e se virado sozinho, aparecendo um pouco depois. Acreditava mais nessa segunda opção. As tecnologias estavam tão precisas…

8 minutos.

13 minutos.

“Online”

Decidiu esperar até 15, já sem nenhuma vontade de fazer o que havia intencionado. Botou a blusa, foi passar um café e checar se estava com tudo pronto para a viagem. Mas enquanto fazia suas coisas, sentiu que essa situação estava muito longe de ser corriqueira, embora parecesse.

Seu namorado estava obviamente excitado do lado de lá, havia enviado uma foto a ela do ato, deixado claro como estava se sentindo e o que estava fazendo. E mais, a havia envolvido. Porque se fosse para ele se virar sozinho, poderia simplesmente não ter enviado foto alguma.

Não é?

Pegou o celular e apagou a foto que havia enviado a ele. Apagou também todas as mensagens que havia enviado após a foto que ele enviou. Tomou o café, curiosa para saber o que ele lhe viria a dizer. Genuinamente curiosa.

“Oi amor, por que apagou a foto? Manda de novo aí!”

20 minutos depois.

“Ricardo, não entendi nada. E não vou te enviar foto alguma. Se quisesse ver, teria visto durante todo o tempo que ficou aí.”

“Você viu que eu tava ocupado…”

“Vi, comigo que não era.”

“Claro que era. Eu até te mandei a foto… Pensando em você”

“E ficou online 20 fucking minutos falando com alguém enquanto esfregava o p**, que não era eu.”

“Eu… han? Eu deixei o celular do lado”

“O seu celular bloqueia a tela em 30 segundos. Você mesmo me mostrou essa configuração. E outra coisa, 20 minutos é tempo demais pra você”.

Para não nos alongarmos tanto aqui, somando-se aos 20 minutos de ausência do boy (que de acordo com ela, não durava mesmo tanto assim), ele confessou uma coisa um tanto curiosa. E um pouco perturbadora.

Sim, ele estava excitado. Sim, havia pensado nela, no início, e por isso mandou a foto. Havia pensado, em algum momento, lembrado deles, mas acabou trocando mensagens com uma amiga lésbica dele, que o tinha como confidente, amigos de muitos anos, que por puro hábito, contou a ele sobre a noite anterior que havia tido com sua nova namorada.

Assim, de bobeira, como quem conta um caso. E que ele não teve culpa.

Não era a intenção se excitar com aquilo, mas à medida que ela ia contanto… ele perguntava mais. E enquanto ela esperava, com o braço em cãibras, ele soltar pelo menos um “uau, que gata!” após ver a sua foto, ele estava na verdade se masturbando pela amiga. Com a nova namorada. E não, a amiga não sabia disso.

Mas ele poderia começar de novo, se fosse esse o problema… ora!

Essa história gerou algum debate acalorado na mesa e óbvio que tinha homem para passar pano. Mas minha mente trabalhou em tantas camadas… tantas… E na principal conclusão de que a infidelidade não precisa de muita coisa para acontecer. É um descuido, uma falta de respeito.

Não se importar com alguém que te espera. Ativar alguém sexualmente e deixar aquela pessoa no ar, a imaginar coisas. Perguntamos a ela o que aconteceu depois disso. E ela disse que durante o tempo que esperava, sentiu algo morrer dentro dela: o desejo sexual. Esfriou com ele, não conseguia imaginar-se mais na cama com ele, em nenhuma circunstância, mesmo que o sexo fosse bom, sempre tivesse sido.

Viajou no dia seguinte, para a Alemanha. E dessa viagem voltou solteira. É exagero dizer que o status do Whatsapp foi o fio de toda essa meada? Não. Quem lembra sabe que houve uma época em que era impossível esconder o status.

“Feliz Dia das Namoradas… à outra”

Mais uma na conta do status.

Essa história ouvi de outra amiga, em outra situação e não pude deixar de me surpreender com tamanha similaridade de tema, me chegando em momentos tão diferentes, e de pessoas tão diferentes.

Fernanda, assim como Camila, havia acabado de começar um relacionamento. Com uma mulher, porém. E se supõe que só a ausência de um homem na parada já vai evitar que se passe por uma série de atrocidades em um relacionamento. É verdade, vai mesmo. Mas a discussão é bem mais profunda do que isso. Lembra dos tons de cinza? Pois é. Muitos. Muitos mesmo.

Fernanda havia conhecido Débora em uma festinha da faculdade. Compartilhavam interesses, a mulher era maravilhosa e muito a fim de firmar compromisso, o que é raridade em nossos tempos.

Segundo Fernanda, isso foi uma das coisas que mais chamou a sua atenção com relação à ela. Débora, com poucos meses de namoro, já falava em morar juntas, compartilhar contas, ajudar na faxina da casa, “juntar” mesmo. Afinal, pagar dois alugueis para quê?

Por pura intuição, mesmo querendo, Fernanda segurou a onda. Para se conhecerem melhor antes. Fernanda adorava fumar um às vezes, para relaxar. Não usava drogas, bebia álcool e quando fumava, não bebia. Assim, considerava fumar mais saudável para sua saúde mental do que beber. Débora tinha trauma com essas coisas e havia sinalizado que não aceitava muito bem a ideia, mas não ia impedi-la de continuar com algo que gostava.

Ela também não gostava de muitas outras coisas e foi sinalizando e afirmando cada uma delas, para que Fernanda entendesse qual era o tipo de parceira que Débora queria ter e se convertesse, um pouco mais a cada dia, nessa pessoa.

Tempo vai, tempo vem, Fernanda em casa de Débora, que a essa altura estava louca pra se mudar pra casa da namorada, contava de uma reunião que havia feito com a galera da turma num sábado à tarde, para debater um filme. Débora pede um minuto, levanta a cabeça, que estava pousada no colo de Fernanda e a olha nos olhos:

“Tinha maconha?”

“Claro que tinha, amor. Mas o filme era muito longo, e o Douglas queria falar sozinho…”

“Para mim, não dá.”

Débora entra em uma crise de raiva, e diz que não pode namorar alguém que faz uma coisa dessas. Que ela precisava escolher entre fumar ou namorar. E que precisava pensar bem se ia trocar uma pessoa tão boa, uma namorada tão dedicada, por drogas. E que por favor se fosse à sua casa, porque ela precisava pensar também.

Indignada e com o resto da história do filme que queria contar à Débora presa na garganta, Fernanda pegou o carro e foi embora. Meio atordoada e se sentindo mal por “trocar alguém tão boa por drogas”.

O Dia 12 de Junho estava chegando e seria o primeiro que Fernanda comemoraria com alguém. Havia preparado várias surpresas, presentes e uma noite daquelas.

Chegou em casa, viu toda aquela parafernália romântica e se sentiu muito triste. Foi para a casa de três amigos, afogar as mágoas em vodca barata com suco de abacaxi. Contou a eles a história. Eles tampouco gostavam de maconha, mas não achavam motivo para tando alarde. Ela não podia parar de uma vez de fumar e acabar logo com o drama?

Bem… poder, podia.

Lá pelas tantas da madrugada e já alcoolizada a ponto de não conseguir voltar pra casa naquela noite, Fernanda decide abrir o coração pelo Whatsapp, sem nem se preocupar que já fosse mais de uma da manhã àquela altura

“Online”

Das profundezas de sua bebedeira, algo despontou no centro de seu peito. Débora já havia dito mais de mil vezes que não tinha paciência para ficar no Whatsapp.

Poderia ser algo pontual. Poderia ser uma mensagem da família, que morava longe. Poderia. Fernanda ficou olhando a tela, o status permaneceu por mais de uma hora sem desconectar, madrugada adentro.

Perguntou aos amigos, o que poderia ser alguém estar online por uma hora direto e eles só conseguiram se indignar com o fato de que ela havia vigiado isso durante toda a hora em questão, enquanto estava ali com eles.

Era justo.

Ela desencanou um pouco. Mas a pulga atrás da orelha não largou o ofício.

No dia seguinte, 12 de Junho, despertou louca pra fazer as pazes e com uma ressaca insistente. Abriu a janela de Débora no Whatsapp, nenhuma nova mensagem dela.

“Online

A ansiedade disparou. Supostamente deveriam se encontrar naquela noite em um festival de rock na cidade, onde estariam todos os amigos das duas, uma grande festa de Amor celebrada em conjunto, com muitos casais entre amigos em uma das fases mais bonitas que podemos desfrutar em nossas vidas. Jovens, alegres, gente festiva. Dilemas e emoções. Fernanda tomou a iniciativa:

“Feliz Dia das Namoradas, amor. Vamos fazer as pazes, por favor?”

“Online”

Uma hora depois, chega a resposta:

“Para você também. Vamos sim. Que horas chega ao show?”

Era sexta-feira e haviam combinado de ir após o show para uma chácara passar o fim de semana juntas. Fernanda se arrumou como pôde, deixou os presentes no carro e passou o dia com a ansiedade nas alturas. Mal conseguia comer. Débora, sustentava sua distância calculada, sua mágoa funcional.

Encontraram-se no show somente muito tempo depois de haverem chegado. Débora com seus amigos de um lado, Fernanda com os seus de outro. O sinal de celular estava péssimo.

Fernanda procurou por Débora por toda parte e foi uma de suas amigas que a viu por acaso, já bastante alcoolizada. Encontraram-se e ficaram juntas, com o grupo de amigos de Fernanda, porque os de Débora já estavam muito bêbados. Ela demorou muito tempo para voltar a si, fazendo a mesma pergunta repetidas vezes, dando algum trabalho. Nada disso passou despercebido pelos amigos de Fernanda.

Em algum momento da noite, depois de muitos goles de água e muito cuidado da namorada, Débora voltou a si. Foi ficando sóbria e carinhosa, dizendo que sequer sabia como tinha conseguido brigar com alguém que amava tanto. E que tudo ficaria bem.

Durante um dos intervalo entre os shows, foram descansar sobre uma canga. Débora sentia frio e muita sede. Pediu a Fernanda que guardasse suas coisas em sua jaqueta e que conseguisse um copo de água, porque passava por uma leve queda de pressão.

Fernanda atendeu prontamente, caminhando pelo enorme parque, cuja água já dava sinais de acabar. Precisou caminhar para mais longe. Encontrou a água e antes de voltar, deu-se conta de que tinha o celular de Débora no bolso da jaqueta, com a bateria quase no fim.

Ponderou um pouco. Decidiu que não. Caminhou alguns passos de volta. Mudou de ideia. Retornou.

Decidiu que sim.

Sacou o celular e ligou-o, sentindo as mãos tremerem. Já era noite alta e havia esfriado bastante, mas o problema não era bem esse. Em um impulso incontido, abriu o Whatsapp e logo de cara encontrou a resposta para o que tanto lhe perturbou.

Entre vários intercâmbios desrespeitosos de Débora, desde sexuais até pequenos flertes com amigas, algo chamou muito mais a atenção. Havia uma extensa conversa com uma moça específica, da qual nunca havia ouvido falar. A conversa era de muitos dias antes. Contínua. As respostas das duas fluíam em tempo real.

Débora havia desabafado sobre estar insatisfeita com Fernanda. Relatou que não queria nada sério. Que não sabia como sair da relação e que sentia-se pressionada. Que Fernanda tinha problemas com drogas. Débora marcando um encontro com a moça em sua casa – e cancelando no último momento, dizendo que havia perdido a coragem. A moça dizendo que gostava dela ainda mais por isso. Débora tentando marcar um segundo encontro, dessa vez um fim de semana delas juntas.

Fernanda lembrou-se que nos últimos dias, Débora havia mencionado uma viagem que provavelmente faria, para a mesma cidade sobre a qual ela conversava com a moça. Fernanda, já soluçando, checou os horários. Entendeu que participou passivamente da conversa mais picante delas, que durou mais de uma hora, madrugada agora, enquanto esperava Débora desconectar, perguntando-se porque ainda estava ali.

E no dia seguinte, bem cedo, Débora havia desejado à moça um Feliz Dia das Namoradas e tido com ela uma longa conversa, desculpando-se pela já anunciada ausência, afinal iria encontrar-se com Fernanda. Mas ainda prometeu “vou dar um jeitinho de escapar para falar com você durante o fim de semana”.

“online

Segundo Fernanda, essa noite acabou muito mal. Retornou onde estava Débora em fúria, com o plástico do copo de água estraçalhado a cortar-lhe uma das mãos agitando o celular na outra, percebendo o rosto de Débora perder toda a cor.

Ela sequer reclamou da absurda (vamos combinar, né) invasão de privacidade. De acordo com Fernanda, a primeira coisa que ela disse foi: o que você viu? Quem? Por que na verdade, haviam muitas…

Os amigos olhavam de longe a briga escandalosa que se seguiu, com Débora tentando tocá-la enquanto Fernanda tropeçava para trás aos gritos de “não me encosta!” e foi sozinha para o carro, possessa, onde jogou todos os presentes numa lata de lixo ali mesmo e foi embora.

Esse era um festival que acontecia todos os anos e que Fernanda adorava. Ela disse que nunca mais conseguiu ir. Continuou fumando às vezes, sempre que deu na telha e que foi essa a história de quando ficou solteira em pleno Dia das Namoradas.

“Offline”

Deixe um comentário